Crítica | ‘A Odisseia’ desce do Olimpo para entregar a obra-prima definitiva de Christopher Nolan

Crítica | ‘A Odisseia’ desce do Olimpo para entregar a obra-prima definitiva de Christopher Nolan

Se há algo que define a filmografia de Christopher Nolan é a sua atração pelo grandioso. Contudo, em A Odisseia, o cineasta subverte a própria assinatura. Ao invés de olhar para o inalcançável, ele aponta a câmera para a lama, o sangue e a fragilidade da mente. 

O resultado é o trabalho mais maduro de sua carreira: uma releitura visceral do épico de Homero que troca a fantasia mitológica pelo desespero palpável da sobrevivência.

Em uma decisão narrativa brilhante, Nolan varre a interferência divina para debaixo do tapete. Não há deuses todo-poderosos puxando as cordas do destino aqui; há apenas homens quebrados tentando lidar com as consequências de seus próprios atos. 

A lendária Guerra de Troia, tantas vezes glamourizada em Hollywood, é reduzida ao que de fato seria: uma disputa suja e banal por rotas comerciais. 

Esse evento serve apenas como um violento estopim para o verdadeiro foco da trama: o impacto psicológico da guerra e a agonia de tentar voltar ao lar.

O peso da jornada e as sombras de Ítaca

A trama acompanha as consequências desse conflito através da via-crúcis de Odisseu (Matt Damon). Durante uma década, ele e seus homens enfrentam as fúrias do Mediterrâneo, lidando com feras colossais e ilusões mortais na tentativa de alcançar as margens de Ítaca

Simultaneamente, o filme corta para as tensões políticas em sua terra natal, onde Penélope (Anne Hathaway) e o jovem Telêmaco (Tom Holland) tentam segurar as rédeas de um reino sitiado por tiranos oportunistas que desejam o trono vazio.

Crítica 'A Odisseia' desce do Olimpo para entregar a obra-prima definitiva de Christopher Nolan
Crédito: Reprodução

É justamente no elenco que o longa consolida seu status de épico inesquecível. Nolan apostou na diversidade e no tempo de tela necessário para transformar lendas em pessoas de carne e osso. Matt Damon, por exemplo, não nos entrega um herói de peito estufado. 

O épico do século Tudo o que você não sabia sobre 'A Odisseia' de Christopher Nolan (1)
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Seu Odisseu é um homem aterrorizado, fisicamente exausto e consumido pelos fantasmas das batalhas. Damon transmite um medo tão animalesco que é impossível não se compadecer de cada sacrifício que ele é forçado a fazer.

O núcleo de Ítaca não fica atrás. Anne Hathaway domina o ambiente com uma presença formidável. A diretriz de Nolan afasta Penélope do estereótipo da donzela sofredora; Hathaway constrói uma estrategista política brilhante, que usa seu luto como armadura para despistar os inimigos do reino. 

Ao seu lado, Tom Holland apaga de vez a imagem do adolescente da Marvel. Como Telêmaco, o ator atinge um grau de maturidade comovente, traduzindo na tela toda a angústia sufocada de um filho abandonado às sombras de uma lenda.

Crítica 'A Odisseia' desce do Olimpo para entregar a obra-prima definitiva de Christopher Nolan (1)
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Para somar a esse espetáculo, os papéis coadjuvantes são um show à parte. Robert Pattinson brilha intensamente ao dar vida ao líder dos usurpadores, compondo um vilão odioso, mas dotado de uma complexidade que prende a atenção. 

Crítica 'A Odisseia' desce do Olimpo para entregar a obra-prima definitiva de Christopher Nolan (2)
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Jon Bernthal imprime uma ferocidade absurda ao Rei Menelau, enquanto Zendaya surge em cena com uma força magnética inexplicável. 

Contudo, o grande destaque das participações especiais pertence a Lupita Nyong’o, que protagoniza um dos momentos visualmente mais deslumbrantes do filme ao encarnar a dualidade das gêmeas Helena e Clitemnestra.

O épico do século Tudo o que você não sabia sobre 'A Odisseia' de Christopher Nolan (6)
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Um mergulho no terror e na perfeição técnica

O que torna A Odisseia uma experiência arrebatadora é a recusa de Nolan em entregar uma aventura higienizada. 

Sem os deuses para intervir, o perigo se torna muito mais denso e, em alguns momentos, flerta escancaradamente com o horror. A sequência em que a tripulação precisa lidar com o Ciclope é um exemplo perfeito de como a direção cria um clima sufocante de puro terror, fazendo os espectadores se encolherem nas poltronas.

O épico do século Tudo o que você não sabia sobre 'A Odisseia' de Christopher Nolan (4)
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E mesmo com três horas de duração, o filme avança em um ritmo hipnótico, conduzido por diálogos afiados, que soam modernos e urgentes. Muito desse fôlego se deve ao esmero técnico absurdo da produção. 

O design de som é opressivo e imersivo, enquanto a trilha sonora fantástica de Ludwig Göransson dita o pulsar de cada cena, engolindo quem está assistindo.

Ao subirem os créditos, fica a certeza de que Christopher Nolan não apenas adaptou um clássico, mas reescreveu as regras do que esperamos de uma superprodução. Ele usou a escala de um blockbuster colossal para contar uma história íntima sobre a resistência do espírito humano. 

Com um elenco no ápice de suas carreiras e uma direção formidável, o filme se consagra como o evento cinematográfico da década.

A Odisseia chega aos cinemas do Brasil nesta quinta-feira, 16 de julho.

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