Crítica | Sem medo de ser absurdo, Street Fighter (2026) abraça a nostalgia e entrega um combo perfeito

Crítica | Sem medo de ser absurdo, Street Fighter (2026) abraça a nostalgia e entrega um combo perfeito

Adaptar franquias de luta para o cinema costuma ser uma armadilha cruel. O diretor Kitao Sakurai, no entanto, encontrou a saída ideal para o novo Street Fighter: abraçar o caos absoluto. Em vez de tentar enfiar um tom sombrio, dramático e excessivamente realista em uma história sobre artistas marciais que disparam bolas de energia pelas mãos, a produção pisa no acelerador da insanidade. O resultado é um espetáculo visual vibrante, autoconsciente e desenhado sob medida para quem cresceu com os dedos calejados no controle.

Trama e ambientação noventista

A narrativa nos transporta direto para 1993, capturando a estética da época com precisão e sem perder o ritmo. A história acompanha os esforços da obstinada agente da Interpol Chun-Li (Callina Liang) para desmantelar as operações do sindicato criminoso Shadaloo. Para invadir o novo Torneio Mundial de Guerreiros, ela recruta a clássica dupla de rivais e amigos: o sempre centrado Ryu (Andrew Koji) e o exibido Ken Masters (Noah Centineo). O roteiro não perde tempo com exposições arrastadas, preferindo usar a tela para desenvolver a química central e jogar esses personagens em sequências de ação viscerais.

Elenco em sintonia com absurdo

O time de atores parece ter recebido carta branca para se divertir ao máximo com o ridículo da premissa. Koji serve como a âncora emocional, segurando o peso do guerreiro focado na disciplina, mas é Centineo quem rouba a cena com um carisma caótico e uma jaqueta prateada de gosto bastante duvidoso.

Liang, que passou por um treinamento físico brutal para o papel, entrega uma lutadora letal, linda e absurdamente gostosa. O filme, inclusive, ironiza de forma inteligente a histórica obsessão da cultura pop pelas famosas coxas da personagem. Afinal, Chun-Li foi a primeira musa nerd, a lutadora que despertou a libido de uma geração inteira de garotos que hoje estão na casa dos 40 e 50 anos — e o resultado disso é ver o cinema em polvorosa, cheio de marmanjos que saem das sessões completamente apaixonados por ela até hoje.

No núcleo antagonista, M. Bison encontra em David Dastmalchian um intérprete fabuloso. O ator constrói um ditador teatral, operático e perigosamente insano, exalando poder em cada cena. A escalação de apoio é um show de impacto físico, misturando astros de Hollywood com a elite da WWE. Ver Cody Rhodes incorporando a marra militar (e o icônico cabelo flat-top) de Guile e Roman Reigns surgindo como a ameaça suprema Akuma garante que cada golpe desferido tenha o peso de um trator. É impossível também não sorrir toda vez que Jason Momoa entra em quadro, claramente se divertindo horrores sob a pele (e a maquiagem) do mutante brasileiro Blanka.

Ryu e Ken de volta o novo live-action de 'Street Fighter' vai finalmente quebrar a maldição dos cinemas (1)
Crédito: Reprodução

Direção, humor e tributos visuais

A direção brilha, sobretudo, quando decide rir de si mesma. O longa dispara piadas metalinguísticas excelentes que dialogam com as bizarrices de quase 40 anos de franquia. O alívio cômico Dan Hibiki (Andrew Schulz) ganha um dos melhores momentos da sessão ao revelar o verdadeiro — e constrangedor — motivo de ter ido lutar com um quimono rosa: um mero acidente de lavanderia envolvendo as roupas vermelhas de Ken.

As homenagens também impressionam pela ousadia. Em vez de recorrer aos flashbacks tradicionais em live-action, o filme ilustra o passado dos personagens com sequências em anime 2D lindíssimas, um aceno direto aos aclamados longas animados da década de 90. Já no campo da ação desenfreada, a recriação literal do clássico “estágio bônus” dos fliperamas — onde é preciso destruir um carro a socos — injeta uma dose pura de adrenalina e saudosismo. A sagacidade do roteiro se mantém até os instantes finais, quando a direção encena aquela clássica tela de vitória solitária, com o herói recusando ajuda e caminhando descalço rumo ao desconhecido, apenas para desconstruir a poesia heroica segundos depois com um merecido choque de realidade sobre a dor de pisar no asfalto quente.

Experiência definitiva para fãs

Longe de tentar ganhar prêmios da Academia ou se disfarçar de cinema cabeça, a obra é um blockbuster apaixonado por suas próprias raízes. Se você tem 40, 50 anos ou mais, e passou a juventude nos fliperamas, a verdade é uma só: este filme foi feito para a nossa geração. Ele é a recompensa gloriosa para aquela molecada que pegava o troco do pão e do mercado escondido para torrar em fichas na máquina do boteco sujo da esquina. Um verdadeiro “Round 1, Fight!” que vale cada centavo do ingresso.

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