
Crítica | ‘O Sorveteiro’: Quando a nostalgia do horror escorre pelas calçadas e vira pesadelo
Em 2005, o diretor Eli Roth virou o mundo do terror de cabeça para baixo com O Albergue (Hostel, 2005), cravando seu nome na história do gênero antes de eternizar-se como o temido “Urso Judeu” em Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009), de Quentin Tarantino. Desde então, cada investida do cineasta traz a promessa de carnificina com muita personalidade. No ano passado, ele acertou em cheio com o divertido e inventivo Feriado Sangrento (Thanksgiving, 2023), que misturava terror e comédia em um slasher festivo impecável. Era natural, portanto, que a chegada de O Sorveteiro (Ice Cream Man, 2026) gerasse expectativas absurdas, impulsionadas por trailers coloridos e caóticos que pareciam prometer uma comédia terrir deliciosa.
Contudo, a sessão nas salas de cinema revelou uma rota completamente oposta. Quem comprou o ingresso esperando uma festa sangrenta e descontraída acabou encontrando um banho de sangue muito mais pesado e sombrio.
Sinopse de ‘O Sorveteiro’
A trama se desenrola na pacata cidade costeira de Bayleen Bay, onde um misterioso caminhão de sorvete comandado por um homem silencioso, Jonathan Smiley (Ari Millen), aterra na vizinhança e conquista a obsessão das crianças locais. O jovem Jared (Charlie Zeltzer), um garoto intolerante à lactose que foge dos doces, começa a notar um comportamento bizarro em seus colegas, que entram em transe assistindo a vídeos hipnóticos projetados pelo veículo.
A situação desmorona quando, durante a noite, os pequenos moradores entram em possessão macabro-coletiva e assassinam os próprios pais. Com a ajuda dos colegas Tommy (Shiloh O’Reilly) e Mia (Kiori Mirza Waldman), além de sua irmã adolescente Lizzie (Sarah Abbott), Jared precisa sobreviver ao caos enquanto a escola vira um matadouro e a cidade desmorona sob uma onda de violência escolar.

Um festival de horror sem leveza
O grande choque do filme está no abismo entre o que o material de divulgação vendeu e o que realmente aparece na tela. Enquanto o trailer pintava a obra com cores vivas e tiradas bem-humoradas, o longa revela-se uma produção sombria, implacável e surpreendentemente vazia de respiro cômico. As mortes exibidas são de um gore gráfico pesado, mas o tom geral carece daquela inventividade lúdica vista em Feriado Sangrento (Thanksgiving, 2023).
O filme transita por um desconforto constante que não chega a gerar o pânico claustrofóbico de O Albergue (Hostel, 2005), mas patina em uma sensação esquisita de vazio criativo. A atmosfera é deprimente, falhando em entregar a catarse divertida que o público esperava, parecendo um esforço menor e menos inspirado em comparação a produções recentes como A Hora do Mal (Weapons, 2026).

Atuações e veredito
Vale destacar que o elenco infantil — liderado por Charlie Zeltzer, Shiloh O’Reilly e Kiori Mirza Waldman — segura a onda de forma impressionante diante de um roteiro bastante pesado. Embora não alcancem o terror genuíno de clássicos absolutos como Colheita Maldita (Children of the Corn, 1984) e A Cidade dos Amaldiçoados (Village of the Damned, 1960), os jovens atores entregam convicção em meio ao caos.
Por fim, O Sorveteiro (Ice Cream Man, 2026) não é a viagem nostálgica e divertida que o trailer prometia. É a obra mais implacavelmente sombria e fria da carreira recente de Eli Roth, deixando um gosto bem amargo na boca.

